Sintra, cidade de castelos

Peguei o trem para Sintra na estação do Rossio, em Lisboa. Eu e mais quinze mil turistas. Português era o que menos se ouvia na estação. Alemão, japonês, espanhol, muito espanhol, francês, até russo. Mas português… bom, nem eu estava falando. Isso porque minha companheira para o passeio bate-volta era uma chinesa de Shangai.

Depois de um pouco de stress na máquina de venda de bilhetes (ela não tinha comprado ainda), e de ajudar três ou quatro turistas que não falavam português, finalmente saímos em direção à cidade de contos de fada onde a família real portuguesa passava suas férias.

A viagem não dura cerca de meia hora, suficiente para eu me familiarizar com minha companheira de viagem, que eu havia conhecido três dias antes, num jantar da comunidade de Couchsurfers de Lisboa. Se você não conhece o Couchsurfing, recomendo dar uma olhada. A melhor maneira de viajar sozinho acompanhado que existe.

Viajar com estranhos é parte-integrante-não-pode-ser-vendida-separadamente de fazer mochilagem por aí. Você viaja por conta própria, mas nunca está sozinho. Chega num albergue, faz melhores amigos imediatos, ou no meu caso, vai a um encontro de Couchsurfers, faz novos melhores amigos imediatos. Eu estava hospedada no apartamento que meus pais alugaram, então não tinha o ambiente do albergue para me enturmar. E meus pais já conhecem Sintra, e com o sobe e desce que é a cidade, achei compreensível que não quisessem visitar de novo.

Da semana que passei em Portugal, aquele foi o único dia nublado. Feio mesmo, cinzento. Pra quem mora na Irlanda esse é o padrão, mas em Portugal você se acostuma rapidinho a céu azul e muito calor. Foi uma frustração. Achei “caramba, não vou ver nada, sacanagem que esse tenha sido o único dia em que pude vir aqui”. Desci do trem amaldiçoando o tempo.

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O centro histórico de Sintra

Lisa, minha nova melhor amiga temporária, disse que pra ela também era frustrante, pois aquele era o clima de Londres, onde ela morava. As duas olhando pro céu e pensando “o que eu fiz pra merecer isso?”

Mas dramas à parte, foi pisar fora da estação de trem e nosso humor mudou. Mesmo sem ter chegado ao centro histórico, Sintra é uma cidade fofa. Até a câmara municipal é uma gracinha de prédio com mistura de arquitetura mourisca e uns leões com cara de arte chinesa na frente. Lisa deixou bem claro que não têm nada a ver com arte chinesa.

Após uns dez minutos caminhando, chegamos ao centro. O número de restaurantes beira o impossível, metidos em qualquer canto disponível, brigando por espaço e atenção com as lojinhas de souvenirs e com preços de chorar, em comparação com Lisboa. Se em Lisboa você consegue uma refeição completa, com sopa, prato principal e vinho por 5 euros, em Sintra o mais barato é 10 euros. Ainda é muito mais barato que boa parte da Europa, mas dá um pouco de dor no coração (e na carteira).

O centro da cidade está no fundo de um vale, e todos os castelos estão em volta. Olhando pra cima você pode ter uma ideia do que esperar: uma fortaleza com muralhas de pedra, um castelo multicolorido, árvores e mais árvores. A entrada para todos os monumentos é paga, mas felizmente você pode comprar um ingresso que combina vários deles e ganhar um descontinho. Está à venda no escritório de turismo (Praça da República, 23) e nas portarias de todos os castelos e palácios.

Uma das razões pelas quais meus pais também não quiseram me acompanhar a Sintra era a ideia de passeio que eu tinha: caminhar. Você pode pagar 7 euros e pegar um ônibus que circula entre centro, Castelo dos Mouros e Palácio da Pena. Ou você pode subir morro após morro e visitar todos a pé. Eu sou mais da segunda opção. Sempre que posso, prefiro andar. Você vê mais coisa, presta atenção em mais coisa. Ônibus é bom quando você tem pouco tempo, mas com o verão europeu, com sol até as nove da noite, nós estávamos tranquilas.

A caminhada é fácil, mas cansativa. Nada de escalar montanhas, mas é tanta subida que você começa a pensar “devia ter pagado pelo ônibus”. O caminho inteiro é pavimentado e muito bem demarcado. Sem contar que, na dúvida, basta seguir as hordas de turistas.

Sintra tem seis palácios/castelos a que se pode chegar a pé a partir do centro. Todos são enormes e intrincados, então é melhor escolher o que ver. Nós escolhemos o Castelo dos Mouros e o Palácio da Pena. O Castelo dos Mouros porque as muralhas são incríveis, construídas sobre um maciço de pedras, e o Palácio da Pena porque é simplesmente anormal. É o tipo de coisa que só vendo pra ter certeza que realmente está lá.

Castelo dos Mouro, Sintra

O Castelo dos Mouros, em Sintra

Primeira parada, Mouros. O castelo foi construído entre os séculos 8 e 9 e está em excelente estado, considerando quanto tempo já passou. É um teste de coragem, já que não há corrimão ou proteção contra uma bela queda. Minha coragem ficou devendo em comparação à da Lisa, que já tinha me avisado que era bem moleca e quando era criança subia em tudo quanto era muro. Enquanto ela se encarapitava no topo das muralhas, eu tirava fotos. Uma bandeirinha verde com escritos árabes dizia Sintra, em árabe, “Shantara”.

De lá, seguimos pela trilha até o Palácio da Pena. O legal desse palácio é a mistura de estilos. Século 19, Romanticismo. Se é exótico, deve ser legal, esse era o lema. Por isso, o palácio mistura o neogótico, neo-islâmico e neo-renascentista, e possivelmente um bilhão de outras referências que na época eram puro luxo e glamour. Ver o palácio de longe já é uma surpresa: sentado no topo de uma montanha, sozinho, rodeado por florestas densas, você vê uma torre cilíndrica amarela, uma outra quadrada vermelha, uma muralha cinzenta, um portão absurdamente trabalhado. Mas estar dentro dessa estrutura é uma experiência única. Os detalhes mudam a cada passo, e me passa pela cabeça a basílica da Sagrada Família em Barcelona. Uma versão mais tímida e menos ambiciosa, claro.

Eu tenho uma mania de querer passar a mão em tudo, pra sentir a textura das coisas. E esse palácio foi um prato cheio: cada parede tem um padrão de azulejo diferente, com relevos, cada portal tem esculturas completamente diferentes, e o chão muda de padrão a cada dez metros. As esculturas, aliás, são uma questão à parte. Uma delas, uma das mais sensacionais, é uma espécie de “sereio” (ok, Tritão, o deus do mar) cujos cabelos se transformam em videiras e envolvem o balcão logo acima. A Wikipedia me informou que o próprio D. Fernando desenhou essa escultura, como uma alegoria à criação do mundo. Ficamos eu e a Lisa tentando adivinhar se aquele balcão seria do quarto do rei ou da rainha. No fim, entramos e esquecemos completamente de verificar, principalmente porque o interior do castelo é tão incrível quanto o exterior, mostrando como viviam os ricos e podres de ricos no século 19. Fiquei surpresa ao descobrir que eles já tinham privadas com descargas.

Palácio da Pena

Palácio da Pena, Sintra

Saímos de lá pensando em como deve ter sido ser princesa e passar os verões em Sintra, com criados subindo o morro com todos seus baús de roupas e você sentada lendo um romance de banca encapado em couro. E saindo à noite para encontrar numa das ameias aquele mocinho da guarda real que te dava mole.

Voltando para a vila (de ônibus, porque nossos pés não aguentavam mais), queríamos provar os famosos travesseiros e queijadas da Piriquita, o salão de chá mais famoso de Sintra. Os travesseiros são massas folhadas recheadas com açúcar, canela e amêndoas trituradas, enquanto as queijadas são tortinhas que lembram muito o cheesecake, com o topo caramelizado. Mesmo eu que não gosto muito de doce fiquei curiosa para experimentar. Principalmente porque a bebida recomendada é café sem açúcar, que é meu tipo de café favorito.

A vontade era muita, mas o cansaço foi maior, e como o próximo trem saía em cinco minutos, corremos para a estação e olhamos com pesar a mágica Sintra ficar pra trás, e começamos a discutir quando poderíamos voltar para ver todos os outros palácios que deixamos de lado.

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Categorias:Colunas, Laura Prado, Turismo

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