The Tudors : dica de série

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A série

Esqueça tudo o que você sabe sobre uma boa série épica. Esqueça tudo o que você sabe sobre uma boa série de conspiração e mistério. Esqueça tudo o que você sabe sobre uma boa série sobre um anti-herói psicopata. Por incrível que pareça, «The Tudors» consegue abordar o que há de melhor e de pior nas melhores séries de televisão do momento. Sim, porque, convenhamos, ela não apenas é épica como as bens sucedidas «Game of Thrones» e «Spartacus», à exceção do elemento fantasia, como também é repleta de conspirações e um roteiro excelentemente elaborado, tal como «Breaking Bad» ou «Mad Men», além ainda de contar a história de um charmoso monarca ambicioso e inescrupuloso que hoje poderia muito bem ser considerado um psicopata, tal como «Dexter». O bônus? Figurino impecável e brilhante adaptação da história da realeza britânica.

Enfim, as analogias supramencionadas podem não ter sido muito felizes, mas a verdade é que «The Tudors» é definitivamente uma série de televisão que cativa não apenas pelo enredo histórico, ou pelas maquinações e tramas nos bastidores do poder, sempre tão incrivelmente sedutoras e atemporais, como também pelo fator apelativo sexual. Portanto, não se preocupe se você não gosta de história, porque você certamente vai gostar da série por vários outros motivos, e ao final vai acabar se deixar conquistar pela Dinastia Tudor, e tudo o que ela representou para a Inglaterra.

Admito que «The Tudors» jamais me interessou antes quando de sua transmissão, e somente há pouco fiquei intrigada a finalmente assisti-la. Sorte minha que a série já acabou, e pude me deleitar com maratonas inteiras de episódios seguidos, pois exatamente como qualquer outra boa série, aqui você não vai se contentar em ver apenas um ou dois episódios: sempre vai querer saber o que vem na sequência, mesmo que já saiba a história.

Exibida entre abril de 2007 a junho de 2010 pelo canal Showtime, e desenvolvida para a televisão por Michael Hirst, responsável ainda pelos excelentes longas «Elizabeth» e «Elizabeth The Golden Age», bem como pelas séries «Camelot» e «Vikings», «The Tudors» conta parte da história da Dinastia Tudor, casa real de origem escocesa cujo símbolo é a rosa inglesa, e que governou o Reino Unido entre 1485 a 1603.

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A história por trás da série

Considerada a era de ouro da monarquia inglesa, a Dinastia Tudor, representada por Henrique VII, Henrique VIII, Eduardo VI, Maria I e Elizabeth I, desenvolveu a Inglaterra e a transformou em uma das maiores potências marinha e militar naquela época. Iniciada por Henrique VII após a Guerra dos Roses e da batalha com a família York, a série de TV com quatro temporadas e trinta e oito episódios, mostra apenas parte do reinado de 38 anos do polêmico Henrique VIII, seu sucessor, considerado esse o monarca que exerceu o poder mais absoluto da história, porquanto eliminou a única autoridade capaz de limitar as decisões reais: a da Igreja Católica.

Responsável pela Reforma Anglicana, política religiosa rigorosa de perseguição aos católicos, tornando-se ainda chefe absoluto da Igreja da Inglaterra, Henrique VIII dissolveu os monastérios e confiscou ainda as terras da Igreja Católica, distribuindo-as aos nobres em troca de apoio político. Foi responsável pelo intenso desenvolvimento comercial com investimentos na marinha mercante, possibilitando intensos lucros para os comerciantes e para o Estado, e sua política trouxe apoio total do Parlamento, que passou de órgão limitador, a instrumento de limitação.

Em «The Tudors», vemos tudo isso, e muito mais.

THE TUDORS

Primeira temporada

Na primeira temporada, que cobre os acontecimentos entre 1518 e 1530, o rei da Inglaterra, excelentemente interpretado por Jonathan Rhys Meyes, é apresentado como um jovem ambicioso e cheio de energia e vigor. Ele se prepara para começar a guerra com a França, mas é dissuadido pelo poderoso Lord Chanceler, o Cardeal Wolsey (Sam Neil). Casado com Catherine de Aragon (Maria Doyle Kennedy), ele já é pai de Mary, mas está obcecado com a ideia de ter um herdeiro varão. É nesse momento que sua amante de longa data, Elizabeth Blount (Ruta Gedmintas) engravida, dando-lhe o tão esperado filho que vem eventualmente a falecer ainda pequeno.

A primeira temporada mostra ainda o envolvimento de Henrique VIII com as irmãs Boleyn, Mary (Perdita Weeks) e Anne (Natalie Dormer), e os problemas com a Igreja Católica Romana e os esforços do Cardeal Wolsey junto ao Papa Clemente I para a obtenção da anulação do casamento do monarca com Catherine a fim de que ele possa se casar novamente, desta vez com Anne Boleyn.

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Segunda temporada

A segunda temporada cobre os acontecimentos entre 1531 e 1536, e é marcada por grandes acontecimentos, como a queda do Cardeal Wolsey, o conturbado casamento de Henrique VIII com Anne Boleyn e sua incapacidade de lhe gerar um filho, bem como a dramática execução de Thomas More, aliado ainda à ruptura da relação com a Santa Sé e a instituição da Igreja Anglicana.

Inescrupuloso, o rei da Inglaterra não mede esforços para fazer o que quer, e sempre com apoio dos nobres, do amigo de longa data, o Lord Charles Brandon, Duque de Suffolk (Henry Cavill), e do Primeiro Ministro Thomas Cromwell (James Frain), torna-se respeitado (ou temido) por suas convicções.

Não menos importante ao final da segunda temporada é o próprio fim do casamento com Anne Boleyn, e sua execução.

E se Jonathan Rhys Meyers faz bonito como Henrique VIII em todas as suas fases da série até o ápice da loucura e suas constantes alterações de humor decorrentes de uma infecção na perna causada por um acidente, e que consumiu com sua saúde, o elenco de apoio também não faz por menos. Natalie Dormer empresta todo seu carisma como Anne Boleyn, e dignifica a figura histórica da ex-amante e segunda rainha acusada injustamente de adultério com dramaticidade inigualável, e confere uma interpretação magistral nos instantes finais antes da sua execução em praça pública.

Jeremy Northam também surpreende como Lord Thomas More, encerrando sua participação também no segundo ano. E James Frain está imbatível com seu Thomas Cromwell, do mesmo modo que Henry Cavill, que parte do elenco fixo, é o amigo e confidente do monarca, Lord Charles Brandon, e empresta vivacidade nas duas primeiras fases da série, e sempre com a devida sutileza, único capaz de lhe fazer advertências mesmo na vida pessoal.

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Terceira temporada

Com o fim da era Boleyn, Henrique VIII se casa com Jane Seymour (Annabella Wallis), e tem início o terceiro ano da série, que cobre os acontecimentos entre 1536 e 1540, dentre os quais, a «Peregrinação da Graça», uma revolta popular contra a Reforma Religiosa.

Única capaz de lhe dar o tão esperado herdeiro homem, que eventualmente se torna o rei Eduardo VI, Jane Seymour acaba falecendo após o parto, o que a faz ser considerada por muitos como a alma gêmea de Henrique VIII, eis que ele próprio a considerou a única e verdadeira rainha da Inglaterra ao seu lado, inclusive sepultada junto a ele, provavelmente pelo fato de ser aquela que lhe deu o filho homem que tanto desejava.

Viúvo, o monarca fica recluso, no interessantíssimo episódio «Problems in the Reformation», quando então, no episódio seguinte, entra em cena Anna de Cleves (Joss Stone, sim, ela mesma, a cantora).

Thomas Cromwell, agora implicado em corrupção, e principal alvo dos membros da Câmara de Lordes, agora é Conde de Essex, e sugere o nome da irmã do Duque de Cleves, importante aliado de Henrique VIII no ataque da Igreja Católica à Inglaterra. O monarca então conhece Anna apenas por meio de retratos e descrições, e decide se casar com ela. A despeito de achá-la pouco atraente ao conhecê-la, a união ocorre, mas acaba eventualmente sendo anulada, não apenas por falta de interesse, mas também por considerações políticas, já que o Duque de Cleves entrou em disputa com o Sacro Império Romano na qual Henrique VIII não queria se aliar. Tendo concordado com a anulação, Anna permaneceu na corte, e recebeu o título de irmã do rei, tornando-se eventualmente amiga e confidente de Mary (Sarah Bolger) e de Elizabeth (Laoise Murray).

O desastroso casamento com Anna de Cleves foi a oportunidade esperada pelos inimigos feitos por Cromwell na corte em decorrência da desigualdade na divisão dos espólios da dissolução dos monastérios. Preso por traição, ele foi executado na Torre de Londres e, diz-se, que o próprio Henrique VIII, e não Sir Francis Bryan (Alan Van Sprang), escolheu intencionalmente um carrasco inexperiente, que somente após três tentativas, conseguiu executá-lo, causando-lhe dor e sofrimento.

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Quarta temporada

A quarta e última temporada, que cobre os acontecimentos entre 1540 a 1546, começa com Henrique VIII extasiado com sua quinta esposa, a jovem e vivaz Catherine Howard (Tamzin Merchant), que após traí-lo com o cortesão Thomas Culpepper (Torrance Coombs) e empregar como secretário um ex-amante, Francis Dereham (Allen Leech), é julgada, condenada e executada.

É nessa temporada, ainda, que Mary dá os primeiros sinais do tipo de rainha que virá a se tornar, historicamente conhecida como «Bloody Mary», por perseguir e executar vários protestantes na tentativa de restabelecer o catolicismo na Inglaterra durante seu reinado logo após Edward VI. Do mesmo modo, Elizabeth também mostra indícios de sua aversão pelo casamento, como um suposto trauma aos relacionamentos do pai.

Mais uma vez sem rainha, o monarca se casa com sua última esposa, a rica viúva Catherine Parr (Joely Richardson), união essa cheia de discussões sobre religião, eis que ela era radical, e Henrique VIII, conservador. A despeito de tal conduta desagradar ao rei, Catherine consegue se sobressair mostrando-se submissa.

Ao final da temporada, marcada ainda pela conquista do território de Bologna, o monarca confronta sua própria mortalidade, bem como a visão de suas falecidas esposas. No avanço de sua idade e a queda de sua saúde, sua tirania é mais aparente, com uma onda de execuções políticas ainda mais intensa, o que, provavelmente aliado a uma vida inteira de desprendimentos emocionais e comandos todos em prol unicamente de seus interesses pessoais é o que justifica o recente estudo de Kevin Dutton de que Henrique VIII seria nos dias de hoje o que chamamos de «psicopata».

De qualquer forma, Jonathan Rhys Meyers confere a seu Henrique VIII empatia inabalável, o que por vezes nos faz entender suas atitudes, a despeito de não aceitá-las, e não é difícil se comover com os últimos instantes da series finale, como o sonho do ceifador se aproximando da figura jovem e esbelta do monarca frente a um céu estrelado, e a conclusão do icônico retrato do rei da Inglaterra, por Hans Holbein (Peter Gaynor), seguida de uma sequência em flashback de todos os grandes momentos de sua vida mostrados na série.

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Erros históricos

A série, apesar de fiel em determinados aspectos, difere em outros que realmente aconteceram na história, dentre os quais:

i. O casamento de Margareth (Gabrielle Anwar), irmã de Henrique VIII, com o rei de Portugal, o que jamais ocorreu, eis que esta se casou com o rei da Escócia, enquanto foi Maria, outra irmã do rei da Inglaterra que se casou com o monarca francês (e não português), Louis XII, união essa que durou apenas três meses, vindo ela a se casar com o Lord Charles Brandon logo em seguida.

ii.  O filho considerado legítimo de Henrique VIII com a amante Elizabeth Blount, historicamente, não morre na infância, tal como ocorre na série. Henrique Fitzroy («filho do rei») morreu aos 17 anos, 10 antes da morte do monarca, e quanto já circulava um ato para torná-lo seu sucessor.

iii. O Palácio de Whiteball, indicado como lar de Henrique VIII desde o início da série, somente veio a se tornar sua residência após a queda do Cardeal Wolsey.

iv. O Cardeal Wolsey não foi preso e não cometeu suicídio como mostrado na primeira temporada. Acusado de traição, ele se ficou em Londres para responder às acusações, e morreu a caminho de Leicester.

A despeito dos exageros e dos erros apontados (ou mudanças propositais), e outros eventualmente existentes, a série não peca no quesito adaptação de época, figurino e atuação. Além de excelente roteiro, a produção reúne um elenco jovem espetacular, donde obviamente se destaca Jonathan Rhys Meyers, que consegue com perfeição transpor a decadência do rei por conta de sua saúde em seus últimos anos, aliado a participações muito especiais, como as dos veteranos Peter O’Toole e Max von Sydow.

Após assistir «The Tudors» é inevitável querer saber como a história continua, e a dica são os dois longa-metragens com roteiro de Michael Hirst, responsável pela série: «Elizabeth» e «Elizabeth The Golden Age», que contam a sequência da Dinastia Tudor logo após a morte de Henrique VIII e a segunda mais importante monarquia inglesa com a Rainha Elizabeth I, sua filha com Anne Boleyn. Vale a pena conferir, tanto quanto a série!

 

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Categorias:Danielle Lenzi, Seriados, TV

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